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Medicina e tecnologia: A cirurgia da epilepsia na década do cérebro

Nos Estados Unidos, o Presidente George Bush determinou que os anos 90 seriam a década do cérebro.

Do ponto de vista prático, este fato representou a injeção de milhões de dólares em pesquisa na área de neurociências, ou seja, em neurologia, neurocirurgia, neurofisiologia, neuroanatomia e etc.

Impulsionada pelo grande impacto e pelo auxílio que o desenvolvimento tecnólogico gerou na medicina, a década do cérebro representa ainda um incremento significativo na pesquisa de medicamentos para doenças neurológicas altamente prevalentes (como o mal de Alzheimer, o Parkinson e as epilepsias) e um grande avanço na qualidade dos métodos diagnósticos, anunciando ao mesmo tempo uma verdadeira revolução nos métodos cirúrgicos.

O estudo do cérebro

Órgão máximo do pensamento e da mente humana, o cérebro controla todas as funções fundamentais do corpo, sendo responsável pela capacidade de pensamento abstrato, fala, raciocício e pelas emoções. Nele estão em jogo bilhões de neurônios, sinapses, além de milhares de substâncias mediadoras exercendo funções altamente complexas.

Por tudo isto, o estudo do cérebro é extremamente complicado e sua pesquisa demanda profundo empenho técnico, deparando-se com dificuldades como por exemplo a transposição dos resultados obtidos através de pesquisas com animais para o homem.

O advento de exame simples como o de raio x, que facilitou enormemente o diagnóstico em diversas áreas da medicina, não trouxe entretanto grandes avanços no conhecimento e no tratamento do cérebro, já que através de um raio x é possível enxergar somente o crânio, mas não o cérebro; avanços neste sentido só ocorreram com o advento da tomografia e da ressonância magnética.

Foi só na década de 70 que os avanços tecnológicos permitiram o surgimento de mecanismos técnicos que viabilizaram o estudo sistemático do cérebro e das doenças que o afetam de forma relevante, dando início a um desenvolvimento científico que atingiu seu pico na chamada década do cérebro.

A epilepsia e as funções do cérebro

Desde o início do século, a epilepsia sempre foi uma fonte privilegiada e inesgotável de pesquisa, verdadeira janela para o estudo das funções do cérebro.

O primeiro grupo a dedicar-se ao estudo sistemático desta doença, foi liderado em Montreal por Penfield, um dos grandes neurologistas do início do século. Sua grande inovação, consistiu em definir o que a medicina conhece hoje como as diversas áreas do cérebro e suas funções.

Através da estimulação de pontos específicos do cérebro e da observação dos sintomas que ela determinava (a movimentação quando se estimulava a área motora, bloqueio da fala quando se estimulava a área da fala, alucinações visuais quando se estimulava a área visual,etc.), foi possível, com base nas diferentes crises epiléticas conhecer as diversas funções do cérebro.

Os avanços

Na década do cérebro, a interação da mais sofisticada tecnologia, através de imagens, da computação e em breve até mesmo de robôs nos procedimentos cirúrgicos, reformulou completamente o conceito da microcirurgia e da cirurgia para epilepsia em especial.

No que se refere aos avanços da capacidade de precisão diagnóstica, o exame de ressonância magnética de alta definição, um procedimento que não dura mais que vinte minutos, tornou possível a realização de diagnósticos de lesões no cérebro com precisão milimétrica, trazendo à luz lesões antes sequer imaginadas.

Ao mesmo tempo, os procedimentos diagnósticos vem se tornando cada vez menos invasivos. Exemplo disto é a tomografia por emissão de fótons, exame que mostra o metabolismo cerebral e que auxilia tremendamente na localização de focos epiléticos, e da espectroscopia da ressonância magnética, exame que será capaz de fazer um diagnóstico histológico das lesões cerebrais, sem que haja necessidade de uma biópsia.

A microcirurgia para epilepsia foi a modalidade terapêutica que passou a fazer uso com maior eficácia da tecnologia de ponta, não apenas no diagnóstico mas no tratamento definitivo de muitos pacientes, representando hoje um procedimento médico altamente seguro e eficaz.

Atualmente, é possível integrar a visão do cirurgião e a ressonância magnética, através de uma sonda colocada na ponta do instrumento cirúrgico, criando uma espécie de realidade virtual, que permite acompanhar através de imagens transmitidas por uma tela tridimensional cada passo exato da cirurgia a cada momento, diminuindo consideravelmente as chances de ocorrência de um erro humano.

Por sua vez, a utilização de métodos sofisticados como a técnica microcirúrgica e o uso de microscópio e de material microcirúrgico especial (capaz de tratar com maior delicadeza o cérebro), permitem ao médico precisar exatamente onde deve ser o foco de ação.

O uso de câmeras de alta definição capazes de transferir a imagem seja por satélite ou pela Internet, possibilitaram ainda que cirurgiões de países diferentes possam presenciar o mesmo procedimento cirúrgico, e até mesmo interagir nele, mesmo a longa distância. Isto permite que cirurgiões de diferentes locais do mundo discutam uma cirurgia em pleno andamento.

Década do cérebro no Brasil

A década do cérebro e tudo que se passa em termos de pesquisa nos EUA repercute no mundo inteiro. Entretanto, à despeito do esforço de algumas instituições isoladas, a década do cérebro teve mais impacto na América do Norte que em nosso meio.

Apesar de tantos avanços, no Brasil, muitas pessoas e até mesmo médicos ainda desconhecem o desenvolvimento tecnológico que transformou a neurocirurgia e a microcirurgia da epilepsia num procedimento extremamente eficaz e seguro, com complicações em apenas 1% dos casos.

Nos casos mais comuns, como na epilepsia que tem sua origem em uma porção do cérebro denominada lobo temporal, espera-se uma taxa de cura entre 90 e 94%. Outro fato que poucos conhecem é que em muitos casos, a cirurgia pode ser realizada mesmo em crianças pequenas, com excelentes resultados.

Seguramente ainda há muito que conhecer sobre o cérebro e seu funcionamento. Na próxima década, um dos grandes desafios da pesquisa neurológica será a busca de maior entendimento bioquímico do cérebro, o que implicaria em descobrir quais seriam as moléculas responsáveis por funções altamente complexas do cérebro como o pensamento ou a emoção.

Para Penfield , o expoente da neurocirurgia funcional moderna, o grande problema da humanidade é a busca de "compreensão de si mesma", o que em seus termos significa entender o cérebro, órgão máximo que diferencia os homens dos outros animais.

Para a ciência, o cérebro ainda não foi totalmente compreendido. Mas na década do cérebro, o impacto e a repercussão que os novos métodos diagnósticos e terapêuticos trouxeram à neurologia, evidenciam que aprendemos mais sobre o cérebro nesta década que em todo o último século.